Esses dias conheci textos e vídeo de Contardo Calligaris.
Psicanalista e colunista de jornais, que faleceu no ano de 2021.
Dos textos que li sobre esse escritor, quero deixar registrada aqui uma entrevista que gostei muito.
"É preciso sentir plenamente as dores: das perdas, do luto, do
fracasso. Eu acho um tremendo desastre esse ideal de felicidade que tenta nos
poupar de tudo o que é ruim." - Contardo Calligaris
Caligaris defende a necessidade de se construir uma vida interessante,
pela qual tenhamos apreço, e não projetar nossa busca por motivação e
significado naquilo que não possuímos: "não por acaso, o grande espantalho
do nosso século é a depressão. A falta de interesse pelo mundo e pelos outros é
o que pode nos acontecer de pior", explica o psicanalista.
O que é felicidade hoje?
Contardo Calligaris: Não gosto muito da palavra
felicidade, para dizer a verdade. Acho que é, inclusive, uma ilusão
mercadológica. O que a gente pode estudar são as condições do bem-estar. A sensação
de competência no exercício do trabalho, já se sabe, é a maior fonte de
bem-estar, mais que a remuneração. Nós temos um ideal de felicidade um pouco
ridículo.
Um exemplo é a fala do churrasco. Você pega um táxi domingo
ao meio-dia para ir ao escritório e o taxista diz: "Ah, estamos aqui
trabalhando, mas legal seria estar num churrasco tomando cerveja". Talvez
você ou o taxista sofram de úlcera, e não haveria prazer em tomar cerveja. Nem
em comer picanha.
Mesmo que não vissem problema, pode ser que detestassem as
pessoas lá e não se divertissem. Em geral, somos péssimos em matéria de prazer.
Por exemplo, estamos sempre lamentando que nossos filhos seriam uma geração
hedonista, dedicada a prazeres imediatos, quando, de fato, vivemos numa
civilização muito pouco hedonista. Por isso, nos queixamos de excessos e nos
permitimos prazeres medíocres ou muito discretos.
Mas continuamos acreditando que ser feliz é ter esses prazeres que
não nos permitimos. E agora?
Contardo Calligaris: Ligamos felicidade à satisfação
de desejos, o que é totalmente antinômico com o próprio funcionamento da nossa
cultura, fundada na insatisfação. Nenhum objeto pode nos satisfazer plenamente.
O fato de que você pode desejar muito um homem, uma mulher,
um carro, um relógio, uma joia ou uma viagem não tem relevância. No dia em que
você tiver aquele homem, aquela mulher, aquele carro, aquele relógio, aquela
joia ou aquela viagem, se dará conta de que está na hora de desejar outra
coisa.
Esse mecanismo sustenta ao mesmo tempo um sistema econômico,
o capitalismo moderno, e o nosso desejo, que não se esgota nunca. Então,
costumo dizer que não quero ser feliz.. Quero é ter uma vida interessante.
Mas isso inclui os pequenos prazeres?
Contardo Calligaris: Inclui pequenos prazeres,
mas também grandes dores. Ter uma vida interessante significa viver plenamente.
Isso pressupõe poder se desesperar quando se fica sem alguma coisa que é muito
importante para você.
É preciso sentir plenamente as dores: das perdas, do luto, do
fracasso. Eu acho um tremendo desastre esse ideal de felicidade que tenta nos
poupar de tudo o que é ruim.
O que adianta garantir uma vida longa se não for para
vivê-la de verdade? É isso que temos de nos perguntar?
Contardo Calligaris: Quem descreveu isso bem foi
(o escritor italiano) Dino Buzatti, no romance O Deserto dos Tártaros.
Conta a história de um militar que passa a vida inteira em um posto avançado
diante do deserto na expectativa de defender o país contra a invasão dos
tártaros, que nunca chegam.
Mas, tem um lado simpático na ideologia do preparo. É que
está subentendida a ideia de que um dia a pessoa viverá uma grande aventura.
Mas o que acontece, em geral, é que a preparação é a única coisa a que a gente
se autoriza.
Então, pelo menos há um desejo de viver uma aventura?
Contardo Calligaris: Mas os sonhos estão
pequenos. A noção de felicidade hoje é um emprego seguro, um futuro tranquilo,
saúde e, como diz a música dos aniversários, muitos anos de vida.
Acho estranho quando vejo alguém de 18 anos que, ao fazer a
escolha profissional, leva em conta o mercado de trabalho, as oportunidades, o
dinheiro... Isso nem passaria pela cabeça de um jovem dos anos 1960.
A julgar pela quantidade de fotos colocadas nas redes
sociais de pessoas sorridentes, elas têm aproveitado a vida e se sentem
felizes. Ou, como você aborda em uma crônica, hoje mais importante do que ser é
parecer feliz?
Contardo Calligaris: O perfil é a sua
apresentação para o mundo, o que implica um certo trabalho de falsificação da
sua imagem e até autoimagem. Nas redes sociais, a felicidade dá status.
Mas, esse fenômeno é anterior ao Facebook. Se você olhar as
fotografias de família do final do século 19, início do 20, todo mundo colocava
a melhor roupa e posava seriíssimo. Ninguém estava lá para mostrar que era
feliz. Ao contrário, era um momento solene. É a partir da câmera fotográfica
portátil que aparecem as fotos das férias felizes, com todo mundo sempre
sorridente.
Para ser feliz, enfim, o segredo é não buscar a felicidade?
Contardo Calligaris: Isso eu acho uma excelente
ideia. A felicidade, em si, é realmente uma preocupação desnecessária. Se meu
filho dissesse "quero ser feliz", eu me preocuparia seriamente.
Preferia que dissesse o quê?
Contardo Calligaris: Só gostaria que ele me
dissesse: “Estou a fim de…" A partir disso, qualquer coisa é válida. O que
angustia é ver falta de desejo nas pessoas, em particular nos jovens. Agora, se
ele está a fim de algo, mesmo que isso pareça muito distante do campo do
possível dentro da vida que leva, eu acho ótimo.